Projeto BRICS de IA no SUS (ITMI): Análise de Viabilidade

O que os US$ 320 milhões compram (e o que eles escondem)

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O contrato foi assinado: US$ 320 milhões (aprox. R$ 1,8 bilhão) financiados pelo NDB para construir o Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente (ITMI-Brasil) dentro do complexo do HC-USP. A promessa é bonita: IA no diagnóstico, ambulâncias 5G e gestão automatizada. Conforme detalhado no anúncio oficial do MCTI sobre o contrato com o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB).

Projeto BRICS de IA no SUS (ITMI) Análise de Viabilidade

Mas quem trabalha no chão de fábrica da TI em saúde sabe que dinheiro para obra (CAPEX) é fácil de conseguir; difícil é manter a operação (OPEX) e a integração sistêmica depois que a fita é cortada.

Se você é gestor de TI, fornecedor de MedTech ou decisor público, esqueça o marketing político. Vamos dissecar os desafios reais de engenharia e interoperabilidade que esse projeto vai enfrentar para não virar apenas um “prédio inteligente” desconectado da realidade do SUS.

1. O Escopo vs. O Legado (O Desafio HC-USP)

Construir o ITMI do zero é a parte fácil. O problema é onde ele está sendo inserido. O Hospital das Clínicas da USP é um colosso de sistemas legados, muitos desenvolvidos internamente (“caseiros”) ou versões customizadas de ERPs de mercado (como MV ou Tasy) que já sofreram décadas de patches.

O projeto prevê 150 mil m² de área. Para a TI, isso significa:

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  • Silos de Dados: A IA do novo prédio conseguirá ler o histórico do paciente que foi atendido no Instituto Central do HC em 2015? Se a resposta for não, a “inteligência” será limitada.
  • Interoperabilidade Semântica: Não basta conectar cabos. O sistema novo precisa entender que “Dipirona 500mg” no sistema A é o mesmo que “Metamizol Sódico” no sistema B. Sem padronização rigorosa, a IA vai alucinar.

2. A Camada de Dados: Onde a IA Tropeça

O texto do MCTI fala em “inteligência artificial aplicada ao diagnóstico”. Vamos ser realistas: IA não é mágica, é estatística aplicada a grandes volumes de dados.

Para o ITMI funcionar, o Brasil precisará resolver a maior dívida técnica do SUS: a qualidade do dado na ponta.

  • RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde): O ITMI será obrigado a trafegar dados pela RNDS. Hoje, a rede ainda sofre com inconsistências de preenchimento na atenção básica.
  • Padrão HL7 FHIR: Se o ITMI não nascer nativo em FHIR (Fast Healthcare Interoperability Resources), ele será uma ilha. A licitação para o software deste hospital não pode aceitar padrões proprietários fechados, sob pena de violar a Lei de Acesso à Informação indiretamente por inviabilidade técnica.

3. Infraestrutura Crítica: 5G e Edge Computing

O projeto menciona “ambulâncias conectadas por redes 5G”. Como engenheiro, vejo dois pontos de falha crítica aqui:

  1. Sombra de Sinal: São Paulo tem áreas de sombra de sinal 5G. Se a ambulância depende da nuvem para processar a telemetria vital, o paciente corre risco ao entrar num túnel.
  2. Processamento na Borda (Edge): A arquitetura precisará ter servidores potentes dentro da ambulância (Edge Computing) para processar dados críticos localmente, usando o 5G apenas para sincronização, não para dependência em tempo real.

Nota Técnica: Licitações que pedem apenas “conectividade 5G” sem especificar latência máxima e redundância de link (SD-WAN com 4G/Satélite) são receitas para sistemas que caem no meio do atendimento.

4. O Modelo de Negócio e Soberania (O Fator BRICS)

O financiamento vem do NDB. Historicamente, financiamentos de bancos de fomento atrelados a blocos econômicos podem vir com “sugestões” de fornecedores.

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Há uma oportunidade gigante para o mercado nacional, mas também um risco de lock-in tecnológico com hardware asiático (comum nos BRICS).

  • Gestão de Identidade: Quem controlará os dados biométricos dos pacientes? O datacenter será próprio do HC/Gov.br ou uma nuvem parceira? A LGPD (Lei 13.709) impõe restrições severas sobre a soberania desses dados sensíveis.

⚠️ Reality Check: O Que Ninguém Te Conta

Existe uma armadilha clássica em projetos públicos de alta tecnologia no Brasil: a manutenção do software de IA. Diferente de um Raio-X que você compra e usa por 10 anos, modelos de IA sofrem “drift” (degradação de precisão) se não forem recalibrados constantemente com novos dados locais.

A estimativa real: Um hospital desse porte precisa reservar cerca de 20% a 25% do valor do investimento inicial por ano apenas para OPEX de TI (licenças, nuvem, equipe de cientistas de dados). Se o orçamento prevê apenas a obra (tijolo e tomógrafo) e esquece o contrato de sustentação do algoritmo, em 2028 teremos um hospital moderno com sistemas “burros” operando no manual.

FONTE: GOV.BR

SUS que utilizará a inteligência artificial no atendimento à população