Adoção de Tecnologia no Plantão: Como treinar médicos
Estratégias de guerra para não parar a emergência
Treinar resistentes a novos sistemas (sem parar a emergência). O dia do “Go-Live” (virada de chave) do novo sistema no hospital é, historicamente, um caos. A fila da triagem dobra. O médico experiente grita que “virou datilógrafo”. O residente erra a dose no sistema novo. O diretor clínico ameaça voltar para o papel.

No projeto do novo hospital ITMI/BRICS, a promessa é que a IA vai ajudar. Mas para o médico que está há 12 horas em pé atendendo uma fila interminável do SUS, qualquer clique a mais é um inimigo.
Se você acha que vai resolver isso com “EAD de Treinamento” ou um manual em PDF enviado por e-mail, seu projeto já fracassou. Médicos não leem manuais de software; eles usam intuição. Se a interface não for intuitiva, a resistência será brutal.
O Diagnóstico: Por que o médico odeia seu software?
Não é tecnofobia. Médicos amam tecnologia (tomógrafos, robôs cirúrgicos). Eles odeiam burocracia digital. A maioria dos sistemas hospitalares no Brasil foi desenhada para faturamento (garantir que o SUS pague a conta), e não para clínica (garantir que o paciente seja tratado rápido).
- O Atrito: Para prescrever uma Dipirona, o sistema exige 8 cliques, 2 confirmações de senha e 1 pop-up de alerta de estoque. No papel, leva 3 segundos.
- A Consequência: O médico cria “macetes”. Ele copia e cola a evolução do dia anterior (gerando dados sujos para sua IA) ou usa o login do colega para pular etapas.
Estratégia de Guerra: O “Suporte Sombra” (Shadow Support)
Esqueça o Help Desk remoto (ramal XXXX). No pronto-socorro, suporte de TI se faz presencialmente.
Durante as primeiras duas semanas de implantação de uma nova IA ou prontuário:
- Colete Azul no Corredor: Coloque analistas de TI identificados (com coletes coloridos) parados dentro do consultório ou no posto de enfermagem, 24h por dia.
- Ação Imediata: Quando o médico travar ou fizer cara de dúvida, o analista intervém na hora: “Doutor, clica aqui que é mais rápido”.
- O Efeito Psicológico: O médico sente que a TI está lá para servir, não para fiscalizar. Isso derruba a barreira de defesa.
Identifique o “Líder de Opinião” (Não é o Chefe)
O erro clássico é treinar o Diretor Médico e achar que ele vai replicar para a equipe. O Diretor Médico mal atende paciente.
Quem manda no plantão é o Staff Sênior que todos respeitam, ou o Residente-Chefe que organiza a escala.
- A Tática: Identifique esse influenciador antes do projeto começar.
- A “Venda”: Chame-o para um café. Mostre o sistema antes de todos. Deixe ele criticar. Arrume o que ele pediu.
- O Resultado: Quando o sistema entrar no ar e alguém reclamar, esse líder vai dizer: “Para de chorar, o sistema é bom, eu ajudei a validar”. A crítica interna morre na hora.
UX/UI: A Regra dos 3 Cliques
Se a IA do ITMI for usada para suporte à decisão, ela deve ser invisível.
- Errado: O médico precisa abrir uma nova aba, logar de novo e digitar os dados do paciente para a IA analisar. (Ninguém vai usar).
- Certo: A IA roda em segundo plano. Quando o médico digita “Dor torácica”, um alerta discreto pisca no canto: “Protocolo de IAM sugerido. Clicar aqui para abrir o set de exames padrão?”.
Se a tecnologia não economizar tempo real do médico (pelo menos 1 minuto por atendimento), ela será sabotada.
⚠️ O Que Ninguém te Conta: O “Vale do Desespero”
Prepare o Diretor Administrativo para este gráfico. Na primeira semana de implantação de qualquer sistema novo, a produtividade médica cai entre 30% a 50%.
- O atendimento demora mais.
- A espera na recepção aumenta.
- A satisfação do paciente despenca.
O erro: A administração se desespera no 3º dia e manda “desligar o sistema” para limpar a fila. A solução: Contrate médicos extras (plantonistas de reforço) para as duas primeiras semanas. Esse custo extra é o preço da curva de aprendizado. Se você não planejar esse “buffer” de equipe, o caos operacional vai matar o projeto de TI.
Reality Check: O Custo do Treinamento Real
Treinar médicos custa caro porque a hora-médica é cara.
- Não faça: Treinamento em auditório no pós-plantão (eles vão dormir).
- Faça: Treinamento in loco (em serviço) ou micro-vídeos de 30 segundos no WhatsApp (“Como prescrever em 3 passos”).
- Orçamento: Reserve cerca de 5% a 8% do valor total do contrato do software apenas para ações de Gestão de Mudança e equipes de “Suporte Sombra”. Sem isso, você terá um software milionário operado por usuários frustrados que inserem dados lixo.
